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Tingido pelas cores do Seridó

Tingido pelas cores do Seridó

(Copiado do jornal Tribuna do Norte - Publicação: 21 de Julho de 2011 às 00:00, matéria Por Gustavo Porpino, Jornalista da Embrapa (Brasília-DF) - especial para TN)

 

O artista plástico Francisco de Assis Córdula, 78 anos, é um homem talhado pelas lembranças do Seridó de seu tempo de menino. Trocou o sertão de Acari, cidade da sua infância, pelo cerrado de Abadia de Goiás há quarenta anos. Pintor primitivista consagrado em Goiás, onde já fez dezenas de exposições, Fé Córdula, como assina suas telas, não vem ao Rio Grande do Norte desde 1974. Sente saudades, ao ponto dos olhos encherem-se de lágrimas quando recorda passagens de sua vida, mas não pensa em voltar. Uma mostra de sua obra, no entanto, desembarca na Pinacoteca do Estado em agosto, na primeira exposição individual do artista na sua terra natal.

 

Em sua casa de Abadia de Goiás, Francisco de Assis Córdula recebeu o jornalista Gustavo Porpino e relembrou a Acari de menino: - O Seridó nunca saiu de mim. Sou um sertanejo, vou morrer desse jeito  

"Expor em Natal é a realização de um grande sonho", salienta. O outro é levar algumas de suas pinturas para Tel Aviv, em Israel. O projeto está em fase de viabilização com apoio do Ministério da Cultura.

 

O "Fé" do nome artístico é uma homenagem à companheira Maria das Dores Feitosa, uma professora caicoense que o acompanha há 37 anos. "É ela quem me apoia, me incentiva. O Fé vem de Feitosa". Ambrósio Córdula, um dos sete filhos do pintor, é escultor santeiro em Acari.

 

Na casa rústica da chácara onde mora, em meio a copaíbas, jatobás e aroeiras, Córdula divide o espaço com a mulher Maria das Dores, a filha Maria Alice, vinte cachorros e nove gatos. Nos galhos das árvores não é difícil encontrar saguis, e os pássaros, assim como em suas telas, são presenças constantes.

 

Embora enfrente a diabetes - já teve uma perna amputada - e problemas cardíacos, Córdula continua pintando diariamente. Suas telas saltam aos olhos com personagens que parecem ter saído dos sertões do Seridó, muitas cores e um estilo muito peculiar, daqueles que só os grandes pintores conseguem imprimir em suas obras.  "Quando eu pinto o primitivo, o sertão está na minha arte", comenta.

 

Observar uma pintura de Fé Córdula causa a mesma impressão de estar diante de um quadro pintado por Dorian Gray, Maria do Santíssimo (1890 - 1974), Thomé Filgueira (1939-2008) ou Assis Marinho, pintores potiguares de diferentes escolas, mas também com inventividade e estilos inconfundíveis.

 

Curiosamente, Fé Córdula precisou ser conquistado pelo estilo mais marcante de suas várias formas de arte. Antes de adotar o primitivismo, fazia artesanato em couro, esculturas em madeira e até em metais. As portas de metal da Embaixada da Síria, em Brasília, são obra dele. "Detestava primitivo. Achava que era sem cultura, sem significância. No entanto, é a raiz, a base de tudo", salienta.

 

O pintor destaca que o primitivismo harmoniza diversas cores. "A beleza e a alegria aparecem. Sou apaixonado pelas cores. Estudei cromoterapia. Conheço bem as cores e a bíblia", ressalta. A religiosidade aparece em suas telas nas paisagens bucólicas do interior goiano ou potiguar, com seus cruzeiros, capelinhas, festas religiosas e a fé da gente simples.

 

São Francisco de Assis, o santo que o pintor carrega no nome, é tema recorrente. "Ele me sustenta", diz, para explicar que as telas com o santo são as mais valorizadas.

 

O pintor português Antônio Batista de Souza, conhecido como Antônio Poteiro, falecido em 8 de junho de 2010, em Goiânia, onde passou a maior parte da vida, é reverenciado por Córdula como o maior pintor primitivista que conheceu. Córdula lembra ainda da potiguar Maria do Santíssimo, que encontrou algumas vezes em São Vicente (RN).  Maria era avó de Iaponi (1942 - 1996) e Iaperi Araújo, igualmente pintores. "Eu sempre ia à casa de Poteiro, e Iaponi passava férias comigo, em Florânia", recorda Córdula.

 

O Chico do Padre

 

 "Desde pequeno vivia fazendo arte", comenta, sem esconder o riso irônico, como quem admite que foi um menino travesso. Córdula frequentou os tradicionais Grupo Escolar Thomaz de Araújo, em Acari, e Ginásio Diocesano, em Caicó. "Sempre tirei notas péssimas, mas em desenho e religião eram ótimas", lembra.

 

Criado pelo padre Ambrósio, vigário de Acari falecido em 1957, ganhou o apelido de Chico do Padre pelos colegas de infância, entre eles o médico Paulo "Balá" Bezerra e o professor Geraldo Batista. "A infância é a coisa mais marcante. É quando o homem está mais próximo de Deus", afirma, enquanto fixa o olhar num ponto distante para puxar da memória as lembranças que gosta de ter.

 

As festas de padroeira, a chegada do inverno e das safras estão sempre presentes em pensamentos. "Sinto até o perfume do ambiente, o clima...", diz. "O Seridó nunca saiu de mim. Sou um sertanejo, vou morrer desse jeito".

 

Certa vez, Córdula retratou suas lembranças de Acari numa única tela. Lá estavam o fogueteiro da festa da padroeira Nossa Senhora da Guia; Cicinho, um negro vestido sempre de branco que seguia a banda de música; e o maestro Felinto Lúcio Dantas regendo a banda. "Queria que essa tela tivesse ido pra Acari, mas terminou numa galeria de arte de Brasília", recorda. A arte de Fé Córdula ocupa lugar de destaque também em galerias de arte da histórica Pirenópolis (GO), em casas de fazenda do interior goiano, e em vários imóveis públicos de Goiás. "Por aqui, devo ter umas duas mil telas espalhadas", diz.

 

Até 7 de agosto, Córdula participa da exposição coletiva Arte Sacra Popular, no Museu de Arte Sacra de São Paulo. A chegada ao Rio Grande do Norte, de onde saiu para conviver com a natureza do Cerrado, parece tardia, mas não sem tempo. "É uma alegria muito grande, mas não vou. Vão os quadros".

 

O encontro

 

São 11h em ponto de 8 de julho de 2011. O dia começou com 15 graus, mas a essa hora a temperatura já bate nos 30. Consegui vencer os 260 Km entre Brasília e Abadia de Goiás e chegar na hora marcada. Como combinado, paro em frente à placa "Condomínio Copacabana", na GO 040, saída de Goiânia. Ligo para o celular de Chico, que demora um pouco a atender. Estava tirando um cochilo.

 

Quinze minutos depois, a poeira sobe na estrada de terra batida que adentra a paisagem de Cerrado na margem direita da rodovia. O carro dá sinal de luz, e logo a seguir, o senhor de barba e cabelos grisalhos pára ao meu lado e sorri pela janela do automóvel. "Pode me seguir, é logo ali".

 

Uns dois quilômetros para dentro, chegamos à porteira da chácara. A filha abre e Córdula estaciona ao lado da casinha que funciona como seu ateliê. Permanece imóvel, com olhar fixo no para-brisa, por quase um minuto. Desço e me aproximo do carro dirigido por ele.

 

O pintor abre a porta, pega as muletas e apoia no chão. Ao descer do carro, já com o olhar fixo em mim, pergunta se eu acredito em destino. Titubeio, e digo que não, mas sem muita firmeza. "Eu também não", diz.

 

Córdula tem jeito de ermitão e, a exemplo do contemporâneo Oswaldo Lamartine, conhece bem a genealogia das famílias seridoenses. "Nunca imaginei conhecer um neto de Manoel dos Cocos e Dona Amélia", destaca. Córdula senta na cadeira de rodas e seguimos até a varanda. Eu sentado numa rede e ele ao meu lado, emocionado e cheio de histórias para contar.



Escrito por Jesus de Rita de Miúdo. às 21h18
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De cabras arrombados e escrotos

As palavras têm um poder incrível de transmutação e entendimento. Agorinha falei para alguém que elas, as palavras, são assim: às vezes se deixam acariciar, noutras querem morder quem lhes afaga. Nem sempre elas têm o sentido da gênese do seu radical, nem sempre representam aquilo que querem dizer. As expressões possuem dinamismo.

Quando fui selecionado entre seis garotos para substituir Roberto Bolinha como menor aprendiz no Banco do Brasil, isso lá em agosto de oitenta e seis, e depois de ter recebido as instruções do gerente Tales Ivan, por quem tenho eterna gratidão, segui todo ancho com papai para Currais Novos, onde eu teria o meu primeiro registro na Carteira de Trabalho. Lá chegando fomos recebidos por Manoel Smith de Medeiros, um homem que depois eu descobriria ser a simpatia em pessoa, real personificação de sujeito do bem, cujo espírito de gente fina está encarnado em toda plenitude nos seus modos. Medeirinho, como era conhecido no quadro de funcionários, olhou para mim, estudou-me da cabeça aos pés, estirou a mão, espalhou o bigode e fuzilou-me: “Jesus, tu és um arrombado!”

Fechei a cara para o sujeito e só fui sorrir em Acari e com um monte de papéis debaixo do braço para arquivar, quando Tales perguntou-me o que eu estava sentindo e eu, no auge da minha adolescência, falei da alegria, do encanto e da decepção de haver sido chamado de “arrombado” por aquele homem. O “meu gerente”, Tales, abriu um sorrisão e explicou-me o real sentido dado por Medeirinho àquela palavra. O caso virou uma espécie de lenda e Solano de Seu Beto, colega de banco naqueles dias, quando podia elogiava-me a la Medeirinho. Percebi, então, as metáforas por trás de algumas palavras e já nem me espantei quando fui, tempos depois, chamado de “galado” por um amigo de Natal. Descobri que arrombado, ou galado, às vezes quer dizer também “sortudo”.

Por isso, por entender que as palavras não possuem significados eternos, mas são como máscaras escondendo rostos – embora elas saibam das caras que omitem – é que eu me arrisco em afirmar “Neto de Zefinha de Antônio Medeiros é um escroto!”

Bonachão, simpático, consciente da piada, presepeiro quando quer, traz uma veia cômica para determinadas ações desde os tempos de menino, e nem os cálculos sérios da Engenharia lhe privaram desse jeito desprendido de ser.

Certa feita, estando em férias por Acari, vagava nas manhãs daquele verão pelo centro da cidade participando de uma roda, indo à outra, entrando num comércio, enchendo o saco de um, pilheriando outro, aperreando um terceiro e seguindo assim até voltar para casa na hora do almoço.

Foi nesse vai-e-vem ocioso que viu Padre Jalmir, recém chegado à nossa paróquia, metido em sua batina atravessando a Praça dos Taxistas e pegando o corredor, mais conhecido como “A Avenida”, que separa os dois mercados no centro da Terra Amada, Acari do amor de todos nós.

Seguia o jovem padre naquele passo apressado, cumprimentando os adultos, abençoando os meninos que, naquele tempo ainda pediam “minha bênção, seu padre”. E Neto do seu lugar, escorando as costas no poste de ferro onde repousava uma placa com a propaganda do filme a ser exibido à noite no hoje extinto Cine São José, um pé na placa e o outro no chão, braços cruzados sobre o peito, acompanhou a caminhada do padre com o olhar atento e admiração sincera.

Viu, por exemplo, quando Padre Jalmir dobrou na esquina do Armarinho de Dona Rosa. Neto teve uma intuição: o jovem padre iria se utilizar dos serviços de Braiado.

Braiado para quem não o alcançou era um dos barbeiros da nossa cidade. Sujeito branco e de olhos azuis, baixo, franzino, inquieto, inteligente, de boas tiradas, inventor de expressões, cara nem sempre simpática, turrão quando podia – e podia sempre, gozador quando queria – e não queria nunca, de palavra, poucas palavras, paciência no nível zero para perguntas desinteligentes, pavio curto... de jeito parecido com os melhores homens de Mário Puzo em sua mais famosa trilogia e eu diria “um cabra empolgado com suas convicções”. Tanto era que não recebia notas de cinquenta cruzeiros desde o dia em que perdeu uma dentro do próprio bolso, como defendia com afinco. O cliente se quisesse pagar trouxesse o dinheiro trocado. Preferia a incerteza do lucro concedendo um amargo fiado, mas nota daquela quantia ele não recebia e nem recebeu até o dia no qual foi oficializado como barbeiro no céu.

Na intuição Neto seguiu os passos do padre, dobrou a esquina e quando se emparelhou com a porta da barbearia avistou-o se arrumando na cadeira Ferrante e Braiado, por trás dele, dando um nó no lençol branco servindo de aparador.

Neto escorou-se com o antebraço no portal, deu bom dia, recebeu a resposta do padre e o olhar sério do barbeiro, observou os últimos preparativos de Braiado: creme numa pequena vasilha de ágata, um pouco de água, um pincel em movimentos circulares. Era a espuma sendo preparada. Depois da espuma “no ponto” ter perfumado o pequeno ambiente, arrumou a cadeira numa posição, deixando o cliente praticamente deitado. A finalidade estava evidente.

- Vai fazer a barba do padre, Braiado véi? – perguntou Neto. Recebeu outro olhar sério e o silêncio como resposta. “Quem cala consente”, pensou quando saiu. Neste instante pôs em prática o plano traçado minutos antes, inspirado, arquitetou na mente detalhes da “arte” e sorrindo maroto começou a dar uma volta no quarteirão. Quando retornou à mesma porta aberta e escorou-se repetindo a posição primeira, encontrou o padre com parte do rosto todo coberto com uma espuma branquinha e Braiado, de costas para a porta, esfregando a navalha num pedaço de madeira, afiando-a para o melhor serviço.

- Vai fazer a barba do padre agora, Braiado véi? – perguntou Neto.

Braiado deu tipo um ligeiro pulo para trás, como se tivesse tido um medo. Encarou Neto e lhe jogou, novamente, o silêncio como resposta. Voltou a se virar para continuar o serviço de amolar o aço.

Neto já saiu rindo. Completou outra volta no quarteirão retornando à mesma porta, colocando-se na mesma posição de escora, dessa vez cruzando uma perna na outra. Ficou observando o serviço do barbeiro por alguns instantes. Braiado estava encurvado sobre o cliente, com uma mão delicadamente puxava parte da pele do rosto do padre e com a outra guiava cuidadosamente a navalha de baixo para cima, calado, compenetrado e com atenção redobrada no trabalho.

- Fazendo a barba do padre, Braiado véi? – perguntou Neto.

O barbeiro levantou a cabeça, esbugalhou os olhos, franziu a testa, mas novamente deu o silêncio como resposta. A face ficou rosada de repente.

Neto permaneceu alguns segundos ali, quase se estourando numa gargalhada. Aí, saiu para contornar o quarteirão. Voltou quando um lado do rosto do Padre Jalmir estava praticamente pronto. Deu um pigarro como quem desejava dizer ou perguntar algo, soltou um assobio, escorou-se como antes, cruzou as pernas, pigarreou novamente e soltou a pergunta.

- Fazendo a barba do padre, hein, Braiado véi?

Dessa vez o barbeiro sequer lhe olhou. Dando a volta na cadeira, limpou a navalha da espuma acumulada e retornou ao serviço em seu melhor silêncio. Neto por sua vez notou o rosto de Braiado se avermelhando. Então, resolveu sair da porta e voltou a contornar o quarteirão. Entreteve-se conversando qualquer coisa com Manoelzinho Marques na calçada da bodega deste, mas lembrou-se da barba do padre e apressado marchou para lá. Foi encontrar um rosto quase totalmente barbeado.

Braiado de frente para a porta, por trás da cabeça do cliente para aproveitar a luz natural vindo de fora, encurvava-se sobre um dos seus ombros e trabalhava o último montinho de espuma no rosto de Padre Jalmir.

Neto foi chegando e assobiando, pigarreando, cantarolando qualquer coisa... Escorou-se, cruzou as pernas, alisou o cabelo...

- É... – Neto pareceu vacilar no que iria dizer. Então, perguntou de súbito: -- Fazendo mesmo a barba do padre, né não, Braiado véi?

- Não! – respondeu o barbeiro dando um pulo e deixando o serviço de lado. Olhou bem nos olhos de Neto, querendo fulminá-lo num só olhar e, com o rosto encarnado, sangue vivo nas bochechas, concluiu: -- Raspando a boceta da mãe! – falou enfatizando a primeira vogal do palavrão.

O que será que o Padre Jalmir, que Deus o tenha em bom lugar, quiçá ao lado de Braiado, pensou daquelas palavras?

E quem vai teimar comigo defendendo que as palavras não são dinâmicas? Alguém ousará dizer que os valores das expressões não são alterados?

Por isso afirmo: Neto de Zefinha de Antônio Medeiros é um escroto! No bom sentido, claro e sempre!


Acessem também o link:

 

http://acaridomeuamor.nafoto.net/photo20071108083248.html

 



Escrito por Jesus de Rita de Miúdo. às 10h29
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Minha alma toda ancha!

Gente, outro dia dei de fuçar o meu velho computador, amigo e confidente já de seis anos, máquina estimada feito um animal doméstico, animal doméstico moderno de verdade.
E de tanto fazer-lhe carinho acabei encontrando um arquivo gravado por Dinda de Dona Anita de Seu Joãozinho, utilizando-se de um texto escrito por mim em 2005. Emocionei-me ouvindo e, querendo compartilhar com alguns amigos, enviei-o para uma parte deles.
Para a minha surpresa logo no outro dia de manhã meu telefone tocou. Era o amigo Jussiê Ramalho, potiguar com fama nacional, palestrante de primeira grandeza, com participação em programas de grande audiência e um contratado pelos principais grupos empresariais do país. Jussiê já fazia parte do quarto quadro de receptores do meu correio eletrônico, numa comprovação clara do poder multiplicador da Internet.
Depois de um bom bate papo, Jussiê é de uma simpatia única, fui abrir o meu e-mail e me deparei com algumas mensagens.
Gente, sem falsa modéstia, ler o que li dá uma alegria enorme na alma. É o verdadeiro salário que recebo, de vocês, acompanhantes deste espaço.
Então, quero dividir com você os elogios, já que noutros tempos dividia as minhas agruras também.

Jussiê ainda escreveu para mim:
Hoje de manhã, como faço todo dia, após o café vou ler meus e-mails, e para minha alegria, ao abrir um deles, ouvi um texto escrito por uma das grandes figuras que conheço, JESUS DE MIÚDO, que de "miúdo" só tem sua massa corpórea, mas é de uma grandeza indescritível.
Meu dia vai ficar melhor, não tenho dúvidas disso, pois ele nos mostra com detalhes, coisas que na maioria das vezes nos esquecemos, e para melhorar, ainda ligo e ele atende e conversamos um bocado de tempo e ele me fala sobre várias outras curiosidades do interior, fiquei feliz em saber que irei ganhar o outro livro do meu amigo.
O RN está de parabéns, nós ficamos orgulhosos de você, continue assim, sendo essa grande figura empreendedora que é.
PARABÉNS AMIGO, muita paz, saúde e suce$$$$$$$O.


Dos EUA me chegou:
Olá, meu caro Jesus! Obrigado por compartilhar essa coisa linda comigo, muito obrigado pelas dedicatórias feitas em seus livros à minha esposa e à minha pessoa , ficamos felizes, na certeza de que vamos desfrutar a leitura dos mesmos com muita, muita saudades de vocês. Esperemos que nessa sua caminhada longa mais muito promissora , você seja um homem realizado e com muito sucesso. Um abraço grande e saudações a todos. Marcelino (Janga) e Fátima.

Os livros aos quais ele faz referências foram levados Por Loló de China e Manoel Araújo, que estiveram pelas terras de certo Sam, setembro passado.

Chico Acari (nossa admiração mútua é algo indescritível) mandou me dizer assim:
Olhe seu Nojento! Você fica fazendo essas coisas só para fazer a gente chorar!
Eu não conhecia esse texto não. Tá demais. Demais!! Relembrei o velho Zé de Ananias, Dona Amália, Ritinha do Coentro, Chicão, Dona Rosa, Antônio Eduardo, dentre outros!
Bravo. Bravissimo! Você se Miúdo não tivesse lhe feito, eu juro que mandava ele fazer de novo. Você diz que é meu fã. Eu sou dez Mil mais de você.
Que suas palavras fiquem perpetuadas nos corações do nosso povo.
Um grande abraço e parabéns pelo texto belíssimo!
Chico Acari.


Aí, foi a vez de minha mainha Tânia Galvão, tão linda em todos os aspectos, emocionar esse cabecinha chata com os seguintes dizeres:
Hoje, um tanto deprimida, me deparo com As tardes mais antigas do meu passado e no texto, tive a impressão de encontrar o meu irmão, já doente, lutando para não nos deixar.
Se eu precisava chorar e não conseguia, foi o bastante.
Obrigada Jesus até por isso.
Estou péssima, mas viva.
Beijo
.

Em seguida foi a vez de Francisco Araújo, falando assim:
Meu caro Jesus, confesso, sinceramente, seu texto gravado na voz do querido amigo Dinda ficou por demais emocionante. Principalmente, lembrando de pessoas que foram tão queridas no nosso Acari e que você com eloquência soube diagnosticar quase em poesia identificando a alma e seus mais nobres costumes e gestos. Meus parabéns!

Valeu pela força, amigo Chiquinho.

Stellinha de Seu Hosa, do alto de quem cria letras enormes, cronista fibra longa, mandou o seu recado assim:
Muito bonito, Jesus, e intenso.
Aproveito o feliz contato para enviar-lhe um texto que produzi esta semana sobre os 'genes políticos' de certas famílias destas plagas. Fique à vontade para postar, se achar que vale.
Abraços,
Stella.


Dinda de Dona Anita de Seu Joãozinho, economizando na escrita o que não lhe falta na boca, escreveu palavras sucintas:
Valeu Jesus!
Fiquei emocionado com minha própria interpretação.
Grande abraço.
Dinda.

E quem não ficaria, amigo?

Das Minhas Gerais, Arli Araújo, com o seu jeitão irreverente disse?
Fala meu grande!
Muito bom quando nos deleitamos com um belo texto.
Não tenho conhecimentos para descobrir o que você sugeriu. Mesmo se o tivesse, talvez não, a sensibilidade, para seguir seus olhares e sua imaginação diante dos cidadãos de Acari.
Não deixa a desejar, também, a forma corajosa como foi narrado. Digno de quem sabe ler.
Quero deixar meu contentamento pelas palavras "curva da ponte". Um ponto de Acari que sempre me fascinou, pelo seu perigo.
Um Abraço, Jesus
.

Matéa de Seu Aristóteles, cabra que faz festa quando me vê, pode ser onde for, mandou para mim:
Redundância... Perfeito para qualquer acariense!!!!
Arimatéa.


Edmundo Eugênio, embaixador de Acari nos arquivos fotográficos, enviou o e-mail para Ciduca Barros e, de ambos, recebi a conversa que trocaram depois:
Edmundo,
Seria desnecessário dizer que o nosso amigo Jesus de Miúdo tem uma mente privilegiada. Aliás, privilegiada é a cidade de Acari que tem, dentre outras qualidades, o talento e a ousadia de Jesus.
Como tudo que ele faz, este poema nos remete às nossas tardes de menino do interior (mesmo não tendo nascido em Acari). A propósito, identifiquei a comerciante com nome de flor. Esta rosa foi, durante muitos anos, correspondente do Banco do Brasil naquela cidade. Não precisa afirmar que para ser correspondente do BB eram necessários probidade, honradez, honestidade, vida ilibada e demais qualidades que, tanto ela quanto o seu esposo, tinham de sobra.
Obrigado por ter me proporcionado ouvir esta joia.
Ciduca Barros.

Já Edmundo lhe respondeu assim:
Meu caro Ciduca,
Além da mente privilegiada de Jesus de Miúdo, o poema é enriquecido, em muito, na bela voz de Dinda.
Dinda de Dona Anita de Seu Joãozinho, se não me engano, trabalhou na Rede Globo de Pernambuco e é o pai de João Batista, jogador da Seleção Brasileira de Basquete.
Jesus me corrija se eu estiver enganado.

Ora, Edi, tirando os confetes jogados nesse cabecinha chata, no mais você está completo de razão. É esse Dinda mesmo, pai de Janjão, como JP, ou João Paulo, é conhecido aqui.

José Alberto Costa, ou apenas JAC, amigo conhecido só pela Internet, jornalista aposentado, ex-secretário de estado lá de Quebrangulo nas Alagoas, poeta de estrela brilhosa, contista e cronista, mandou dizer assim:
Quando falei aqui em casa que era amigo de Jesus, o meu pessoal ficou meio assim... a minha neta mais nova - sete anos - disse: - "Ué, vô, você nem vai a Missa, como pode ser amigo dele?"
Hoje, foi um dia especial, recebi sua autorização para publicar a nossa peleja, conheci um pouco de Acari através de seu Fotoblog e, graças a ele, vi hoje, pela TV Senado, a banda de Música de Acari, que tem o pomposo nome de Filarmônica. E os depoimentos? Cada um mais comovente e mais sincero do que os outros. Mas não vi a fala de meu amigo. O que houve?
Aqui em Alagoas, temos algumas filarmônicas. Uma delas, fez grande sucesso agora, no período de 01 a 05 de setembro, durante a realização da 1a. Flimar - Feira Literária de Marechal Deodoro, um acontecimento que movimentou a terra natal do Proclamador da República, a pouco mais de 30 quilômetros de Maceió. No dia 02, participei do evento, fazendo uma palestra sobre Jornalismo & Literatura para alunos de uma escola municipal.
Os apelidos, isto sim, merecem destaque especial. Quase nem se conhece o vizinho do lado, e até a namorada pelo seu próprio nome. Coisas saudáveis do interior. Outro dia vi uma crônica escrita por um amigo, sobre certa cidade de Pernambuco, onde o que vale é o guia telefônico contendo apelidos dos moradores. O catálogo oficial não serve pra nada. Se eu tivesse ficado no interior, sem um outro apelido especial, seria simplesmente: "Zé de João" ou Zé de "Grinaura", teria o nome dos meus pais como referência.
Parabéns por isso tudo, amigo,
JAC.


Só tenho que agradecer a essa ruma de amigos. Meu salário foi pago e suas palavras são um belo montante para mim.
PS.: O texto completo está também postado em duas partes no blog www.acaridomeuamor.nafoto.net



Escrito por Jesus de Rita de Miúdo. às 16h21
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De Continente Pangeia Moderno

 Sempre fui meio polêmico e isso me faz ser marcado em certas rodas, ou lugares que frequento. Mas é de mim, luto contra esses meus modos, mas não tem jeito. E já se vão quarenta anos desse meu costume de ser teimoso, acirrado em discursões, não querendo ter o braço torcido... essas coisas próprias de qualquer sertanejo seridoense descendente de um Pereira de Araújo.

Uma vez eu discuti feio na UFRN com um professor meu. Eu lhe dizia que a Internet uniria novamente todos os continentes, refazendo a Pangeia. Um único continente intangível fisicamente e só possível no mundo virtual. Preguei naquela ocasião a queda das fronteiras, o expurgo dos entraves diplomáticos e o caminhar livre do ser humano pelo mundo inteiro através da tela de um computador. Recordei o mito bíblico da Torre de Babel, quando os homens intentaram se juntar todos num só lugar e de como Deus castigou dividindo-os pela face da Terra e enrolando seus idiomas. Defendi que a Internet veio como ferramenta para que uma espécie de Torre de Babel possa ser tangível do ponto de vista da união de todos os povos, se não fisicamente, mas em troca de experiências culturais, encurtamento de distâncias para comunicação, abreviamento de tempo para o conhecimento e etc. Foi uma boa discussão. Terminamos aquela nossa teia de argumentos com uma afirmação minha: “Vivemos o limiar de uma nova Pangeia”.

Bom, tenho pesquisado na Grande Rede sobre alguns poetas nordestinos, especialmente as obras de Pinto do Monteiro, Patativa do Assaré e Zé da Luz. Dei de encontrar num dos sites a proposta de venda de um livro sobre Pinto, entrei em contato com o endereço de e-mail citado para saber preço, forma de pagamento e recebimento.

Daí, como resposta, recebi o seguinte:

 

Amigo Jesus,

 

O livro se intitula Pinto Velho do Monteiro, Um Cantador Sem Parelha, contém 132 páginas e sai por RS 30,00 já postado.

É um trabalho que aborda o lado engraçado do grande cantador e poeta e foi elaborado a partir de uma convivência de mais de vinte anos que tivemos.

Recebo com muito prazer esse seu contato, antes de tudo pela simpatia que tenho por Acari, aonde estive uma só vez , na década de noventa.

Volto agora a reencontrá-la através dos livros com cartas belíssimas escritas por Paulo Balá, presente de um amigo que recebi nesse último Natal.

Ainda estou lendo o primeiro volume e aumenta a vontade de voltar aí pra ver de perto esse lugar e essa gente tão ilustre.

Receba o meu caririzeiro abraço.

Zelito Nunes.

 

Se o cabra quer me conquistar fale bem da minha terra! Tenho esse fraco. Mas creio que é assim com todo mundo que vive bem no seu lugar, sem invejas, sem rancores... enfim, sem querer pôr a culpa de tudo que acontece de negativo no torrão em que ele vive. Porque, convenhamos, tem gente que paralisa o seu próprio tempo e depois fica metendo a culpa no meio. Gente sem acesso à moderna Pangeia. Só pode ser.

Bom, diante dessa afirmação de Zelito Nunes, eu lhe respondi em cima da bucha:

 

Todo aquele que admira a minha terra passa a ser chamado de amigo. Portanto, amigo, quero recebê-lo na Terra Amada (Acari do meu amor), sob uma cobertura qualquer, desde que embaixo dela tenha uma galinha caipira bem cozinhada para nós dois, ou mais gente. Marque a data, diga a hora, chame um amigo e venha!

Não deixe de ler o www.acaridomeuamor.nafoto.net , sítio que estou como moderador há mais de cinco anos. Meu doce prejuízo na Internet, mas meu único grande prazer nela também.

Não esqueça de visitar o endereço acima. Porém, antes de ir lá, me mande o número da conta para o depósito do real referente ao livro.

Outrossim, Dr. Paulo Balá assina o prefácio do meu terceiro livro. É muito mais que um acariense para mim. É um ídolo, dado o seu estilo literário.

Atenciosamente e no aguardo,

Jesus de Miúdo.

 

Aí, de bate pronto, sem deixar a palavra cair no chão, o meu novo amigo emendou para mim:

 

Amigo, quem não ficaria feliz por ser amigo de Jesus?

Bom , necessito apenas que você me mande o seu endereço completo.

O resto sai por conta dessa galinha de capoeira que comeremos por aí, posto que já vou começar a construir essa viagem juntamente com o amigo Mairon Maia um cearense amigo do Dr. Paulo que me presenteou com os livros dele .

Um dos livros, acho que o primeiro volume, tem o prefácio do meu amigo e velho camarada Jessier Quirino.

Equanto aguardo o seu endereço, lhe mando esse texto que um amigo (caridoso) publicou por aqui, no JORNAL DO COMMERCIO.

Abraço,

JOSELITO NUNES

 

UM CANÁRIO DA TERRA

Por Esio Rafael, poeta , professor da rede estadual e pesquisador de cultura popular.

 

Uma literatura popular viva, estatística. É dessa forma que se apresentam os livros publicados por Joselito Nunes. Escritor atento e focado nos acontecimentos cinematográficos, imagéticos da sua terra, região do Cariri paraibano, que foram se configurando a partir de uma infância lúdico/sertaneja recheada de elementos propícios aos seus olhos biônicos. Ali estava se processando, inevitavelmente, uma obra literária futura, naturalíssima, sem intervenção de nenhum método de técnica e pesquisa. Uma obra apenas conjugada no rigor da simetria dos recursos da terra que lhe deu vida.

Nos seus escritos, o poeta bombeia alguns leitores, dos mais humildes, mais exigentes, aos mais distantes, condicionando-os a relativizar níveis diferentes de concepções. O leitor mais romântico, nativista, de opinião formada de lembranças da sua terra, daquele Sertão exótico que não mais existe – “um retrato na parede”, portanto, um Sertão vencido. Na certa vai sofrer ao se deparar com a realidade atual de uma região  atormentado com o estranho barulho do fuzil AR-15, incandescendo a noite escura e a vegetação rasteira no Polígono da Maconha. Depois da migração do homem do campo para as periferias dos centros urbanos das cidades interioranas, por pura falta de opção de vida. Consequentemente, a prostituição infantil, a droga. Para o desespero dos mais românticos, a aposentadoria do gibão, peitoral, perneira e da sela, todos submetidos a um caibro do armazém  do sítio, amarrados por cordas de nylon, com a proteção de uma mostra esférica de uma “cabaça” para que o gabiru não roa. Na “manga” ou no roçado, vaga um cavalo desprezado em “osso” à espera do vaqueiro, que tarda, mas chega de calças jeans, montado numa moto, apenas para rever aquele que durante muito tempo não só lhe serviu de escravo, mas foi seu companheiro de estrada, de luta, e de toada.

Mas, há o tipo de leitor interessado em captar do autor seus momentos de diretor de cinema, na hora de captar as características, os traços culturais fiéis de uma região que supostamente teria se esgotado pelas mãos de: Graciliano Ramos, José Lins do Rego ou José Américo, com a – Bagaceira.

Cena aberta para o leitor mais presente, mais próximo do autor e da sua obra. Quem conhece Joselito sabe que ele condensa as literaturas oral e escrita ao mesmo tempo, no dia-a-dia. É a prática do mimetismo que conduz o leitor a interpretá-lo, às vezes como um livro andante, ou por outra, como um personagem da sua própria sombra literária.

É assim que se compõe um escritor que não se parece com ninguém, por isso, a particularidade dos seus textos. Eles são retirados a cru, da maneira mais artesanal possível. É o exercício de uma literatura corrente, mais próxima do povo, real, filtrada dos recursos naturais da terra e refinada por quem interessar, possa.

Joselito Nunes é o escritor dos proscritos de uma sociedade cada vez mais questionável. Sendo assim vem à tona, o forte dos seus textos puxados das “Cidades Invisíveis” numa versão popular, nordestina, de alertar Calvino: Milonga, Cabo João, mamulengueiro e vendedor ambulante; Biu Doido, com a sua longa vida; Delvita, dona de um bar, oitenta anos de cachaça. São esses personagens e estrelas, debutantes das festas de lançamentos dos livros na cola de Joselito, que desfilam nos salões de classe média com a alegria de quem celebra a festa de braço com os cadetes.  Ufanos eles, comemoram o fato de que nenhum escritor das cidades visíveis, nem os mais famosos colocam um número de convidados que supere expectativas.

É uma quebra de paradigma porque só quem comparece a lançamentos de livros e discos, são familiares e amigos.



Escrito por Jesus de Rita de Miúdo. às 10h05
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O texto acima é um belíssimo elogio ao amigo Zelito, mas, em seu cerne, faz referências a certas coisas que qualquer sertanejo ama e venera. Ele também nos mostra que as pessoas se repetem nos diversos lugares, só muda os nomes, mas as atividades e a importância é igual. Vemos ou não acarienses clonados nos exemplos populares do Professor Esio?

Mas, foi vendo o nome de Zelito escrito do jeitinho que foi registrado em cartório que eu me empolguei. Arrochei o nó e mandei essa:

 

Amigo Joselito,

Temos algo mais em comum, além do fato de sermos da grande nação nordestina, amantes da boa prosa, da melhor poesia - a popular; dos causos, da linguagem escrita de Dr. Paulo Balá, das reminiscências de um passado passado para alguns - como um velho retrato desbotado na parede - mas presente para nós; das saudades que não doem porque são gostosas de serem sentidas em sorrisos que lhes são próprios; da paixão pelo Nordeste, por nosso lugar - cada um pelo seu; do gosto por fomentar amizades simples, mas verdadeiras; dos escritos nas paredes, dos ídolos, da admiração por um como Jessier Quirino; do amor pelas coisas do campo, pela fala simples do melhor povo do mundo - o nosso; pela natureza que nos rodeia, desde o canário desaparecendo, até a tacaca que fede só para alguns, passando pelo gosto de se regalar com uma comida sertaneja, ao som da zoada de um carro de boi passando dolente; o ruído da porteira que se abre, o cheiro da terra molhada - mormaço divino; da apreciação da assimetria de um torno de madeira ou de um tamborete velho, desconchavado, beliscoso, dançante, descascado, mas operante; da apreciação de coisas comuns e ao mesmo tempo tão singulares, do grita-grita da feira, do vaqueiro em seu traje de gala em couro, do aboiador de olhos semicerrados avistando a rês ao longe, da sabedoria do cantador de repente...

Pois bem, temos mais algo em comum.

Um ser passou os últimos sete meses do ano de setenta do século passado sugando as energias de sua mãe, numa gestação complicada d’uma criança esperada depois de sete anos sem choro de menino novo na casinha simples, onde o chefe-almoxarifo da usina de algodão vivia com a manicure de olhos lindos, azulados, mais um casal de filhos, em pleno amor e união.

No primeiro mês de setenta e um, oitavo mês, num acompanhamento de rotina do bêbado, porém bom médico do meu interior, em toques sobre o barrigão se chegou à conclusão: a criança está sentada. Não pode nascer de parto normal.

Era eu, pobrezinho, sem saber as dores que daria a mamãe, já dando sinais que seria como sou, um quase normal, louco para muitos, desafiando o estado natural das coisas sem ter ainda chegado, polemizando antes mesmo de encher os pulmões de ar para, assim, poder dar o primeiro grito no mundo.

Pobre de mamãe. Na agonia da descoberta elevou as mãos aos céus e prometeu ao Nosso Senhor Jesus Cristo que se o quadro mudasse, milagre esperado, colocaria o nome da criança de Jesus. Parecia adivinhar que seria macho, aquele rebento que levava na barriga.

Nasci macho! O padre da freguesia, no entanto, sabendo de tal intento, sequer cogitou que minha mãe ficasse em dívida com o Maior de Todos os Santos, e mandou o recado pela própria escrivã de registros civis: "Se registrar como Jesus, não faço o batismo". Daí meu pai, homem simples, preso aos dogmas e princípios da religião católica com sede em Roma, preferiu pôr outro nome e não pagar a promessa a ter que ficar sem poder dar as bênçãos matinais a um filho pagão. Por sugestão de minha irmã recebi o nome de Joselito, em homenagem ao menino mexicano fazendo sucesso naqueles dias pelas rádios e cinemas. Um Joselito Jesus que os pais, na tentativa de pelos menos ficarem adimplentes com o santo requisitado, teimaram em chamar de Jesus, apenas Jesus, depois que esse desceu à pia baptismal.

Portanto, bom e novo amigo, sou mais um Joselito, como você. Só que um Joselito Jesus. Um Joselito Jesus de Araújo Silva que preferiu um dia se assinar apenas como Jesus de Miúdo. Miúdo meu pai. Porém, hoje tentando se redimir da falha em ocultar o nome daquela que se arriscou tanto em lhe pôr no mundo dando-lhe à luz e, assim, se fazendo conhecer por Jesus de Rita de Miúdo.

Um grande abraço!

E eu estou domiciliado à Rua Manoel Esteves de Andrade, 30, do Bairro Ary de Pinho, na cidade de Acari, cujo CEP é 59.000-370.

Mas agora a coisa complicou, porque quero pagar pelos seus livros, de sua autoria, e enviar os meus três, escritos sem maiores pretensões, coisa de contar da minha gente e da minha Terra Amada.

Que a nossa amizade seja profícua, ou, "de futuro" como dizemos por aqui.

Inté!

Jesus de Rita de Miúdo.

 

Agora é esperar a vinda de Zelito e degustar junto com ele uma có-có original, criada em terreiro de terra batida.

Realmente no mundo de hoje em dia tudo é muito próximo.



Escrito por Jesus de Rita de Miúdo. às 10h04
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Mensagem especial recebida hoje.

Todas as mensagens foram importantes e eu amo agradecendo a cada um que se lembrou e ligou, enviou mensagem via cell, pôs tweets, enviou e-mail, comentou no fotoblog, mandou recadinho via Orkut ou Facebook; e aqueles que se lembraram mas não tiveram meios de me enviar um "alô", e aqueles que se esqueceram e vão se sentir culpados, e até aqueles que se lembraram e disseram "aquele doido, deixa pra lá". (risos).

Para agradecer a todos que estão se lembrando da minha data (hoje faço 40!). Coloco uma mensagem especial. Essa, ó:

Hoje não é Dezembro, muito menos 25, mas é aniversário de Jesus.
Jesus de Rita e Miúdo.
Jesus do Seridó.
Jesus de Acari.
Jesus de Vigélia.
Jesus de sua ninhada.
Jesus de todos nós.
Jesus, que se não existisse, precisaria ser inventado.
Jesus que mora em nossos corações.
Jesus, cidadão do mundo.

Parabéns meu filho número três, você não tem noção do orgulho que sinto por ter sido adotada por você como segunda mãe.
Feliz aniversário!
Que Jesus, o do céu, siga sempre a sua frente aplainando o caminho por onde você deva passar.
Grande abraço cheio de LUZ.
Beijo.

Tânia Galvão.


Ô, meu Deus! (riso bobo nos lábios meus).



Escrito por Jesus de Rita de Miúdo. às 17h41
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De cabra teimoso e convencido

            Ontem desci para a reunião da calçada de Seu Antônio Medeiros, costume de todos os domingos há vintanos. Lá chegando eu encontrei o clima meio de algazarra. A turma estava para lá de frenética com uma declaração dada por Paulo de Seu Arthur Cortês. Explico.

Como todos aqui sabem Paulo previu e deu seca para o inverno desse ano. Disse que não chovia. Para alguns amigos seus chegou a dizer “não chove nem para molhar a ponta da língua de um papagaio”. Daí deu de sábado o inverno descer com força sobre todo o Seridó, com notícias sendo dadas de chuvas com mais de cem milímetros em vários lugares não só da região, como também do estado.

O Açude da Santa, por exemplo, em duas horas de chuva no sábado, sangrou para a festa dos banhistas no domingo desde cedo.

Pois bem, Paulo chegou lá na reunião como quem nunca havia pronunciado palavra a respeito de chuvas. Mário Sérgio de Zélia de Demétrio, atento observador dos fatos acarienses, se aproximou dele, pôs as duas mãos para trás, abriu um pouco as pernas e perguntou rindo e em tom de gozação:

- E aí, Paulo, e agora? O que você vai dizer sobre chuvas? – perguntou bem na cara de Paulo. – Você disse que não chovia nem pra molhar língua de papagaio.

A galera da resenha todinha ficou calada querendo saber como Paulo se sairia daquele imprensado. Todo mundo olhando para ele, cada um com o seu olhar mais inquiridor sobre o profeta das chuvas. Paulo também pôs as mãos para trás, abriu as pernas para melhor se apoiar, lambeu os lábios e respondeu balançando a cabeça afirmativamente, queixo meio de lado, naquele seu jeito peculiar de conversar:

-- Rapaz, eu disse que não chovia. É verdade. E se chover eu dou a minha mão à palmatória – disse trazendo as mãos espalmadas para frente do corpo e batendo uma contra a outra, como quem recebe o castigo mencionado. – Se eu errar, errei – continuou. E quando todos já se preparavam para finalmente comemorar uma entrega de pontos dele, Paulo votou a falar. -- Mas errei sem errar! – concluiu aumentando o tom de voz e batendo uma mão contra a outra com mais força. E saiu sem encompridar a conversa.

A algazarra era justamente para se descobrir como um sujeito pode errar sem errar. Fui consultado, óbvio. Mas minha vã filosofia não consegue conceber o pensamento profundo de Paulo de seu Arthur Cortês.

Outro dia Zé Teófilo, sobrinho de Paulo, contou-me que conversava sentado num batente com sua mãe, à porta de sua residência, quando o tio se aproximou. Falavam sobre a validade ideal de uma manteiga da terra. Teófilo defendia que deveria ser uns três meses e Jovelita, sua genitora, até concordava.
Paulo foi se aproximando, se aproximando e, depois de abençoar o sobrinho e cumprimentar a cunhada, entrou na discussão, claro.

-- Manteiga da terra sendo pura, sem mistura, dura mais de cinco anos – declarou.

--Mas Tio Paulo, isso num pode ser. Uma coisa dessa num tem cabimento. Apodrece, fica rançosa, rapaz – protestou Zé Teófilo.

Isso foi tudo para que, no outro dia, no mesmo horário, e por coincidência Zé Teófilo e Jovelita estavam sentados no mesmo batente, Paulo aparecer com um pacote de pães numa mão e uma garrafa de manteiga da terra na outra.

-- Tá’qui! Essa foi compadre Fulano de Tal* quem produziu. Tem mais de cinco anos que me deu – falou já se esforçando para abrir a embalagem.

Zé Teófilo disse que de fato o papel do rótulo já estava quase se desmanchando, amarelado, engordurado, com pouco conteúdo podendo ser lido. Mas a escrita de data em tinta de esferográfica estava visível: quase quatro anos e meio da data.

Zé pegou na garrafa recém aberta pelo tio e se arrepiou todinho quando cheirou na boca da bicha.

-- Tio Paulo, o senhor ‘tá vendo? Essa manteiga está podre, rapaz! – falou fazendo caretas.

-- Que conversa! ‘Tá falando besteira? Eu lhe disse ontem que manteiga sendo pura e sem mistura dura mais de cinco anos – falou Paulo já com um pão aberto e escorrendo a pasta grossa e cheia de bolinhas de gordura que saía da garrafa para o miolo da massa.

Em seguida, de duas abocanhadas, jogou o pão para o “lado escuro”, como “estômago” é chamado pelo meu amigo Everaldo, o Vevé. Depois repetiu o mesmo ritual em mais dois pães, sob o olhar atônito do sobrinho, e saiu cantando vitória. Zé Teófilo vendo o tio se afastar apenas ruminava na mente “como Tio Paulo é doido, meu Deus!”.

Uma disenteria grande, muitos soros e três dias depois, ainda no hospital... Bom, três dias depois nova teima estava no ar.

-- O culpado foi o pão – defendia Paulo de seu Arthur Cortês, para uma platéia de enfermeiros boquiabertos, parada ante o seu leito.

 

 

* Chamei de “Fulano de Tal” o compadre de Paulo, por não me lembrar mais do nome dito por Zé Teófilo. Só sei do sujeito sendo de Cruzeta. 

Manoel de Barnabé, Paulo de Arthur e Rui de Seu Napim



Escrito por Jesus de Rita de Miúdo. às 15h34
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De cabra bom de papo e de repente

 

 

Ontem chegando à noite de Natal, ali por volta das onze e tanto, juventude reunida na Pracinha dos Estudantes, marchei rumo a minha casa com barriga dando sinais de impaciência com a negligência do dono.

No local de sempre, na esquina da praça, o grupo de amigos ocupando o mesmo espaço de todas as sextas-feiras. Joãozinho de Félix, Chiquinho de Seu Moisés, Einar Galvão, Fabiano Pires e Fabinho do Barraco. Desta vez tinham a companhia de Índio, ex-goleiro do Vasco de Acari, mais Seu Toinho do Macarrão, de pé, observando e rindo aquele seu sorriso único, das piadas e teimas dos outros sentados.

Com singeleza de alma cumprimentei a todos, perguntando por Assis Trajano, fiel companheiro daquela gente, mas ontem ausente.

- Assis Tajano, não! Língua Ferina - era Seu Toinho me pondo a par do apelido mais novo do velho Assis. - Ainda não chegou hoje. Mas já-já estará aqui – certificou-me caindo na risada. Aquele mesmo riso solto tão lhe peculiar e o qual eu gosto de ouvir desde a minha meninice. Há tempos eu não tinha o prazer de encontrá-lo, com tempo, para bater uma resenha como nos dias de outrora.

Seu Toinho do Macarrão, melhor lembrando, sob a minha impressão, é um desses homens que consegue rir de quase tudo e principalmente das suas próprias falas. Minha admiração por esse cabra macho vem, como já falei, desde que eu era menino, arrimada em sua capacidade de reproduzir versos. Fã número um de Pinto do Monteiro, poeta popular de grande expressão para os apaixonados por repentes, Seu Toinho quando dá de topar comigo se vê instigado a reproduzir os melhores versos do poeta paraibano.

Ainda lembro bem quando me encantei por Seu Toinho e essa sua capacidade de dá alegria a qualquer ambiente declamando as poesias e contando causos com seu ídolo Pinto do Monteiro, de quem também me tornei admirador através do meu amigo. E quando Seu Toinho pega embalagem e encarna os desafios de Pinto com João Furiba, aí, nêgo véi, é coisa pro caboclo puxar a cadeira, ou sentar no chão, para ficar horas e horas rindo das respostas inteligentes do saudoso repentista de Monteiro, juntamente com o declamador, rindo primeiro.

Era uma tarde ali da minha adolescência quando eu dei de declamar para Silvano da Palhoça a poesia de cordel “A Chegada de Lampião no Inferno”, obra de José Pachêco, que eu lia todos os dias na Biblioteca Municipal sob a vigilância de Daguia Gomes. Seu Toinho do Macarrão, absorto no jogo de damas, inquietou-se vendo o menino magrela se mostrar apaixonado por Literatura de Cordel, algo não muito comum à minha geração, besta geração, arriada dos quatro pneus por gente como Michael Jackson e Menudos. Creio que se desconcentrou no jogo e perdeu de propósito.

- Menino, você já ouviu falar em Pinto do Monteiro? – perguntou-me quando se levantava do banco de granito, entregando o lugar para outro.

- Não, senhor – respondi-lhe. – Quem é esse?

Seu Toinho, seguindo o modelo dos cabras antigos que não gostam muito de conversa comprida, respondeu-me com um verso do repentista, apontando para um grande formiga que passava sob a minha cadeira:

 

- “Admiro um formigão

Que é danado de feio

Andando ao redor da praça

Como quem dá um passeio

Grosso atrás, grosso na frente

E quase torado no meio” – isso é Pinto do Monteiro. Gostou?

 

Ora! Eu havia me apaixonado ali mesmo!

- Rapaz, isso é bonito demais! – respondi empolgado.

- Apois, preste atenção nessa aqui, ó:

 

Admiro um besouro

Cem formigas carregando

Quarenta puxam pra frente

Quarenta atrás empurrando

E as vinte que vão em cima

Pensam que vão ajudando”.

 

Daí se pôs a me mostrar a obra vasta de Pinto do Monteiro, principalmente nos versos que falam sobre as coisas simples das criaturas na natureza.

Daquela tarde em diante viramos amigos, unidos no gosto pela poesia popular e pela obra de Pinto do Monteiro, de quem o também admirado José Lucas de Barros um dia disse “ele tinha nos olhos o faiscar do gênio, a esperteza da fera do repente, a penetração inevitável do felino bravio”.

Seu Toinho, parelhense da gema, veio morar em nossa cidade para trabalhar com Seu Antenor Cabral em sua fábrica de macarrão – o Liberdade, aquele mesmo do jingle até hoje cantado por pessoas daquela época. Daí o epíteto de Toinho do Macarrão.

Onze anos acompanhou Seu Antenor e só se separou quando foi trabalhar na CAERN, empresa pela qual se aposentou há alguns anos. Apesar de Parelhas ser tão próxima, optou por morar na Terra Amada, onde está até hoje e por aqui quer ficar mais uns cem anos, fala sorrindo.

De uma graça apurada, Seu Toinho, como não podia deixar de ser, também faz seus repentes. Certa feita estávamos conversando escorados numa das bombas de combustível do Posto A Palhoça, num começo de noite. Eu esperava a “cigarra” tocar para entrar no colégio e ele estava por ali matando o tempo, ou esperando um adversário para o jogo de damas. A prosa rolava solta e ele já havia declamado muito Pinto do Monteiro. Nisso seu Manoel Porfírio, ex-funcionário do DNOCS, passava bem devagar. O peso da idade obrigava-o a utilizar-se de um cabo de vassoura para apoiar-se. Seu Toinho do Macarrão vendo o quadro ali à nossa frente, cruzou os braços e acompanhou seu Manoel caminhar com dificuldades até uns dez metros passando da gente, olhou para mim e apontou com o queixo no mesmo instante em que começou a rimar:

 

- “Agora, neste momento

Passou uma criatura

Que anda com duas varas

Uma mole e outra dura

Uma que não presta mais

E a outra que lhe segura”.

 

Tem como não rir?

O meu amigo Toinho do Macarrão tem disso: gosta de repentes. E eu também.

 

Seu Toinho segue assim

Cabra bom e arretado

Sendo fã dum pobre Pinto

E por Jesus admirado.

Mas Pinto é Rei no repente

E Jesus é um coitado!

 

Seu Toinho, clicado pela filha Cláudia Ravena



Escrito por Jesus de Rita de Miúdo. às 01h07
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Gente, ainda estou aprendendo a postar aqui.

A Vantagem deste novo espaço é que poderei postar bem mais fotos, o que poderá facilitar a leitura de um conto, de uma crônica... de uma homenagem qualquer.

Os vídeos serão outra arma. E pra começar, ainda em experiência, posto esse abaixo do nosso queridíssimo Rui de Napin.



Escrito por Jesus de Rita de Miúdo. às 18h50
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Escrito por Jesus de Rita de Miúdo. às 18h47
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Barraca Nossa Senhora da Teima. Tudo em teimas e... em confecções masculinas

Manhã de sexta-feira em Acari, não tem como. É tomar café e descer ao centro da cidade para rever amigos e saber das novas.

Desci devagar cumprimentando os meus conhecidos e, convenhamos, essa coisa de se alegrar com a alegria de quem nos vê é a coisa mais fantástica do mundo! Sinto falta dessa relação interpessoal na capital, onde as pessoas são desconhecidas e robotizadas pelo medo e outras “neuras”.

Na Barraca Nossa Senhora da Teima, de Manoel de Barnabé, uma reunião já se formara desde cedo. De longe, ainda, eu percebi a conversa girando em torno de Paulo de Seu Arthur, o nosso querido Paulo Cortês. Não sei o porquê, mas sei que Paulo tem uma opinião forte e Manoel de Barnabé está sempre contrário às colocações do velho amigo, hoje aposentado e morando novamente em Acari. Foi quando eu ia me aproximando que ouvi Paulo sentenciar algo do tipo “nunca fui vencido por homem algum. Fosse ele rei ou presidente, governador ou prefeito, juiz ou general, papa ou coroinha, médico ou curandeiro, engenheiro ou servente de pedreiro”.

- Oxente, Paulo – chamei-lhe à minha atenção. – E você já brigou com esse povo todinho?

Metido em uma camisa mangas-longas, boné meio atravessado na cabeça, calça social bem folgada e o velho par de botas, pisado de lado; Paulo foi se virando e quando me viu espalhou o bigode no rosto septuagenário bem barbeado.

- Não! Eles que procuram me abater e não conseguem. Manoel Besta aqui, pensa que pode comigo – disse apontando com o polegar jogado para o lado do amigo. – Jesus, antigamente ele era até inteligente, hoje ‘tá burro demais – insultou o companheiro de prosa que, do outro lado da barraca despachava Maria de Zé Anjo sem dar a mínima para a teima.

Porém, logo Maria saiu carregada de sacolas e a teima recomeçou. Sendo sincero eu não sei o que teimavam. Mas Paulo alegava ter dado a Manoel o melhor terreno da cidade, isso no tempo em que ele, Paulo, “tinha poder na prefeitura”.

Por ali fui ficando enquanto um ajuntamento de gente para as filmagens na Praça do Coreto começavam. De longe eu já via um casal de idosos dançando um forró bem cadenciado sob a laje da praça.

Meu nome foi gritado. Era Jácio Mamede, nosso Pitoco mais famoso, chamando-me. Sem sair do carro e mesmo antes de nos apertarmos as mãos, foi logo me pedindo:

- Homem, se lhe chamarem para narrar um causo, conte daquele “véi” abastardo, mas tão amarrado, que um dia deu uma bilora de tanta fome no mercado público, mesmo com o bolso cheinho de dinheiro. E ficou lá, desmaiado. Aí, mandaram chamar Dr. Odilon. Quando o médico chegou que examinou o desacordado abrindo um dos olhos forçosamente, sentenciou que ela fraqueza. Depois mandou que fizessem um caldo de carne para despertar o danado. Foi aí que o bicho amarrado, mão-de-vaca e avarento da moléstia, abriu só um dos olhos e exclamou: “se for pr’eu pagar, pode me deixar desmaiado”.

Risadas em pares, despedimos- nos e Pitoco foi embora acelerando o carro.

Voltei para a Barraca Nossa Senhora da Teima. A turma tinha um novo membro. Nisso a teima já era outra. Alguém me disse de Einar Galvão chegando no momento em que Paulo Cortês se despedia dos demais. Manoel e o novo integrante do seleto grupo discutiam sobre Brasília, a Capital Federal. Infelizmente eu havia perdido o começo da teima. Mas ambos se agrediam com palavras e eu pude presenciar o seu desfecho.

- Você não sabe nem quem foi o paisagista de Brasília, ô seu besta – falou Einar Galvão, jogando o braço para cima e levantando-se do banco onde estava sentado, para sentar-se depois da frase.

- Era um primo de mamãe com toda certeza – respondeu Manoel sem se abalar.

- Você não sabe nem quem é Oscar Niemeyer – provocou Einar.

- E você do jeito que mente, vai dizer que votava na mesma secção dele – foi a resposta de Manoel, fazendo questão da pronúncia correta na penúltima palavra pronunciada. Depois, virou-se para mim e continuou: -- Esse homem, Jesus, fica assistindo a TV Escola pra chegar aqui e teimar com a gente. Coitado. Pensa que é inteligente.

Einar só riu da injúria de Manoel. E a teima continuou com alguns sendo a favor de Einar e outros torcendo por Manoel. Eu, imparcial por não entender a disputa, olhava para um e para outro e curtia aquele instante, eleito por ambos o juiz da questão; muito embora eu não soubesse a sentença.

- Jesus, pois ontem me disseram que eu morrendo sigo direto para o céu – Manoel ajeitava uns calções, enquanto falava para mim.

- E por quê, Manoel? – Perguntei-lhe.

- Por aguentar Einar Galvão conversando – respondeu Manoel apontando com o queixo para o lado do amigo.

Sem se chatear com o dito de Manoel, Einar levantou-se, pôs as mãos para cima, como quem pede proteção ou favor dos céus e, em tom de súplica, emendou:

- Ah, o meu touro Frederico nessas costas! Ah, o meu touro Frederico nessas costas! – vaticinou repetindo com ambas as mãos direcionadas para Manoel.

- Prefiro você nas minhas costas, já que o perigo é nenhum – foi a resposta de Manoel sem olhar sequer de lado, mas curvando o dedo indicador da mão direita para baixo.

- Hoje a coisa aqui está pesada – sentenciei me despedindo para tomar outros rumos, porém pude ouvir Manoel se lamentando.

- Jesus, às vezes eu penso em parar com essa coisa de teima – confidenciou Manoel. – É uma fama que não me cabe, sabia?

- Aí, Manoel, você não será mais você – respondeu-lhe Mário de Zélia de Demétrio, escorado num dos paus da barraca.

Manoel já ia explicar que não se achava teimoso como a fama lhe abraçara, entrando noutra teima com Mário, quando, aí, Paulo de Arthur chegou de volta, dizendo no instante em que se sentava no banco que eu desocupara:

- O homem que não é homem, é um cachorro. E o cachorro que não é cachorro, não corre atrás do osso jogado.

Uma frase danada! Só estudando profundamente Filosofia, ou a mente singular de Paulo, para compreendê-la. Não sei qual foi o argumento do autor para o seu dito. Saí antes de presenciar uma nova celeuma. Mas depois quando eu me encontrar com China da Jardinense, Francisquinho de Seu Moisés, Itin Cocão, Jobel, Mário de Zélia, Einar Galvão, Gilvani de Auta, Pezinho de Raimundo Gama ou com o próprio Manoel de Barnabé, quererei saber o que desenrolou depois da espetacular reentrada de Paulo à sombra disputada da Barraca Nossa Senhora da Teima.

Só sei que Jobel acaba de me ligar, quando eu já estava quase fechando a postagem de hoje, para informar que a discussão tomou rumos sobre o peso ideal para um paralelepípedo e, depois, Francisquinho de Seu Moisés reacendeu uma teima de dez anos atrás: no Marizão cabe cinquenta mil pessoas. Duas horas completinhas de teima, com direito a exaltação, xingamentos e sarcasmo de alguns, tudo sob a lente apurada da objetiva de Romeu Dantas, o blogueiro. Talvez ele publique algumas fotos em seu portal.

Coisas de Acari.

 



Escrito por Jesus de Rita de Miúdo. às 18h18
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E a Banda de Música, hein? Quer vê-la tocando um pouquinho?

 

http://www.youtube.com/watch?v=r-2lrLseEbo

 




Escrito por Jesus de Rita de Miúdo. às 23h04
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Gargalheira - Madre e padre

Gente, essa quem me enviou no passado foi Charlla, neta de Dona Severina do Queijo. Infelizmente não lembro quem é o cantor. Mas isso não tira a beleza da composição.

Ademais, eu tenho certeza que Charlla entrará aqui para nos dizer. Acessem o link abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=2rXVDrSN_EA

 


 

 



Escrito por Jesus de Rita de Miúdo. às 22h53
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Ainda fico louco

Era uma noite de um sábado de 1990 no Municipal Clube de Acari e a paquera já rolava há alguns dias, quando eu finalmente tive coragem para chamá-la ao dance. Um momento bem típico da nossa geração, quando a saudosa música lenta ganhava os ares de Acari, saindo das bocas de som de Nonnimo Luciano.

Uma música chegara ao final. Casais saíam e casais entravam, descendo o batente para o dance de madeira polida, em tacos, do Municipal Clube.

De repente, bem na hora em que nós nos abraçávamos, um solo de guitarra inundou os nossos ouvidos e a balada de um músico inglês, que eu só descobri o nome depois, nos aproximou ainda mais. No meio de outros casais, meu braço passado para trás de suas costas, uma mão presa à sua mão suada e fria, meu rosto em seu rosto, nossas coxas se batendo, bocas mudas desejando beijos...

Rodopiamos lentamente abraçados por alguns minutos. Aquela balada chegou ao fim e outras vieram e quase demos o primeiro beijo naquela mesma noite. Mas não foi assim. Porém, é exatamente daquela música que eu lembro cada vez mais quando rememoro aquele nosso primeiro abraço. Ela é a nossa música!

Sttil got the blues é essa a música da nossa história. Uma história de amor.

Agora à noite, pela Internet, eu fiquei sabendo da morte de Gary Moore, o cantor e compositor da nossa música. E a notícia me fez voltar no tempo para me ver, ainda um menino encabulado, levando-a pela mão para o meio do dance do Municipal, abraçá-la sob um solo lindo de guitarra e dançar desejando beijá-la apaixonadamente.

Hoje, daqui a pouco, quando você voltar para casa lhe beijarei e renovarei os meus votos de amor, porque eu ainda te amo como antigamente e sou tão apaixonado como d’antes. E direi a você mudando um pouco a tradução da letra de nossa música: “Tanto tempo, foi há tanto tempo. Mas ainda fico ‘louco’ por sua causa. Embora os dias venham e vão, há uma coisa que sei: ainda fico ‘louco’ por sua causa”.

O solo da guitarra de Gary Moore estará ecoando em minha mente.

 

http://letras.terra.com.br/gary-moore/26929/traducao.html



Escrito por Jesus de Rita de Miúdo. às 22h10
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